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Domingo, 2 de Setembro de 2007

(...) Há 95 anos, o primeiro voo no Porto


 


“Hontem, às 6 horas e 10 minutos da tarde, tendo abrandado forte ventania,levantou o primeiro voo do biplano da creche ‘O Comercio do Porto’.


O aparelho, manobrado habilmente por mr. Trescartes, ergueu--se garbosamente do aeródromo e cortou o espaço em diversas direcções, subindo a 800 metros”.


Foi assim que o Jornal de Notícias registou aquele que estava anunciado como o primeiro voo de avião em Portugal, feito a partir de um aeródromo improvisado junto ao Castelo do Queijo, no sábado 7 de Setembro de 1912. Na verdade, o primeiro voo tinha sido realizado dois anos antes, por Julien Mamet, num Blériot XI, em Lisboa.


Mas foi uma primeira vez para a multidão, 60 mil pessoas segundo as crónicas, que quis ver a desengonçada máquina levantar voo. No dia seguinte, conta o JN, “a concorrência era numerosissima, despejando os carros da Companhia Carris e dos Caminhos de Ferro do Porto muítissimas pessoas, não contando com as que foram em automóveis, trens, bicyletas e motocycletas e a pé”. Segundo Nunes da Ponte, em “Recordando o Velho Burgo”, até no Monte Castro, em Gondomar, se aglomerou “uma verdadeira pilha humana” para tentar ver o avião.


Depois de um teste, no primeiro voo oficial o biplano MF4 elevou-se a 300 metros e, após algumas voltas sobre o campo, seguiu em direcção ao Porto, passando por cima do rio Douro, Praça da Liberdade, Marquês do Pombal e Torre dos Clérigos. Permaneceu no ar durante 16 minutos.


Angariar dinheiro para a construção da obra social das Creches “Comercio do Porto” foi o pretexto para este gesto pioneiro. A lembrança foi do industrial António da Silva Marinho, que adquiriu o avião militar em Paris, fazendo transportar até Leixões a bordo de um paquete. À iniciativa aderiram numerosas entidades e pessoas, tentando rentabilizar ao máximo o evento, num gesto percursor da verdadeira acção de marketing a que hoje os portuenses podem assistir. O “desportista” Henrique Marinho transportou aviador e mecânico no seu “magnífico automóvel Fiat”; o governador civil mandou montar guarda no Palácio de Cristal, cedido para a montagem do aparelho e para servir de local de exposição; os chefes militares emprestaram as suas bandas militares para animarem o espaço que foi devidamente engalanado com bandeiras e flores.


As visitas ao Palácio serviram para reunir um bom montante para a obra social do “Comércio”, mas a verdadeira festa foi no improvisado aeródromo do “Castelo do Queijo”, com a multidão que pagou bilhetes que iam dos 100 reis (peões ao sol) até aos 500 réis (bancada). Um sucesso que depois seria repetido em Lisboa.


David Pontes


» publicado por DPontes às 00:00
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